O que leva as empresas a realizar fusões e aquisições?

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Entender o que leva as empresas a realizar fusões e aquisições é essencial para quem enxerga além das fronteiras nacionais. No contexto da exportação, essa estratégia deixou de ser uma alternativa distante e se tornou um atalho poderoso para ganhar escala, acessar novos mercados e consolidar operações internacionais. Mais do que movimentos financeiros, fusões e aquisições representam decisões estruturais que redefinem a competitividade de um negócio no cenário global.

Para empresas brasileiras que buscam internacionalização, os motivadores vão além da simples expansão de receita. A busca por cadeias de suprimentos mais eficientes, a necessidade de dominar canais de distribuição no exterior e a aquisição de tecnologia ou conhecimento local são fatores decisivos. Quando uma companhia decide se fundir ou adquirir outra, ela está, na prática, comprando acesso — a mercados, a clientes e a capacidades que levariam anos para serem desenvolvidos organicamente.

No setor de exportação, essa lógica ganha contornos ainda mais estratégicos. A consolidação permite diluir riscos cambiais, otimizar a logística internacional e negociar melhores condições com fornecedores globais. É um caminho que exige planejamento cuidadoso, mas que, quando bem executado, posiciona a empresa à frente da concorrência em um ambiente de negócios cada vez mais integrado.

O que são fusões e aquisições (M&A)?

Fusões e aquisições, conhecidas pela sigla M&A (do inglês Mergers and Acquisitions), são operações societárias que reúnem dois ou mais negócios sob uma mesma estrutura de controle. Na fusão, duas empresas se combinam para formar uma terceira sociedade, extinguindo as personalidades jurídicas originais. Na aquisição, uma companhia compra o controle acionário ou os ativos de outra, que pode manter ou perder sua razão social dependendo do desenho da transação.

No Brasil, essas operações movimentaram mais de R$ 280 bilhões apenas em 2022, segundo levantamento da PwC, com volume recorde de 1.738 transações anunciadas. O dado reforça que M&A deixou de ser recurso exclusivo de grandes conglomerados: empresas médias, startups e até holdings familiares passaram a usar o instrumento para acelerar planos de expansão — inclusive em projetos de internacionalização de empresas.

Principais motivos que levam empresas a realizar fusões e aquisições

O que leva as empresas a realizar fusões e aquisições raramente é um fator isolado. Em geral, a decisão combina pressão competitiva, necessidade de escala e leitura de oportunidades de mercado que o crescimento orgânico não entregaria no tempo desejado. Estudo da Bain & Company indica que 70% das companhias que fazem M&A regularmente superam seus pares em retorno total ao acionista.

Os motivos variam conforme o setor e o momento econômico, mas seguem padrões identificáveis. Uma exportadora que compra um distribuidor no exterior, por exemplo, busca encurtar o caminho até o cliente final. Já uma varejista que adquire um concorrente regional quer densidade logística imediata. A seguir, os seis vetores mais recorrentes.

Aceleração do crescimento e ganho de market share

Comprar uma empresa estabelecida é a forma mais rápida de ganhar participação de mercado sem depender da lentidão do crescimento orgânico. Enquanto abrir novas filiais ou conquistar clientes um a um pode levar anos, uma aquisição transfere carteira, estrutura e receita de uma só vez. Dados da McKinsey mostram que aquisições bem-sucedidas geram, em média, 4% a 6% de ganho adicional de receita no primeiro ano pós-integração.

No setor de exportação, esse movimento aparece quando uma companhia brasileira adquire um importador ou distribuidor estrangeiro para consolidar presença em determinado país. O market share deixa de ser construído gradualmente e passa a ser herdado com contratos ativos, equipe local e relacionamento com clientes.

Acesso a novos mercados, tecnologias e talentos

Entrar em um novo mercado exige licenças, canais de distribuição, conhecimento regulatório e rede de contatos que demoram a ser construídos do zero. A aquisição de uma empresa local elimina boa parte dessa curva de aprendizado. É o caso clássico de grupos brasileiros que compram operações na Europa ou na América Latina para acessar acordos comerciais e infraestrutura portuária já estabelecidos.

Tecnologia e talento também pesam: em vez de desenvolver um software proprietário ou recrutar uma equipe de engenharia especializada, a empresa compra a startup que já tem o produto pronto e o time treinado. Esse movimento, conhecido como acqui-hiring, respondeu por 32% das aquisições de startups no Brasil em 2023, conforme dados da Distrito.

Geração de sinergias operacionais e financeiras

Sinergia é o ganho que surge quando a soma das partes vale mais do que as empresas operando separadamente. Na prática, significa eliminar redundâncias: dois departamentos jurídicos viram um, dois armazéns na mesma região são consolidados, contratos de fornecedores são renegociados com volume maior. Estudo da KPMG aponta que sinergias de custo representam de 5% a 15% do valor da empresa-alvo em transações típicas.

As sinergias financeiras incluem ainda redução do custo de capital — uma companhia maior acessa crédito com juros menores — e otimização fiscal, quando a estrutura combinada permite compensar prejuízos ou aproveitar regimes tributários mais favoráveis. Para holdings e grupos que atuam com holding empresarial, o desenho societário pós-M&A pode gerar economia tributária relevante.

Diversificação de riscos e portfólio de produtos

Depender de um único produto, cliente ou região geográfica é vulnerabilidade estratégica. A aquisição permite diversificar receitas de forma imediata: uma empresa de embarcações que compra uma fabricante de componentes náuticos, por exemplo, reduz a exposição a ciclos de demanda do setor principal. O mesmo vale para quem opera com importação e exportação e quer equilibrar a carteira entre moedas e mercados.

A diversificação via M&A também protege contra choques cambiais e sanitários. Companhias com operações em múltiplos países conseguiram compensar quedas regionais durante a pandemia de 2020-2021, enquanto negócios concentrados em um único mercado sofreram perdas integrais. Essa resiliência é um dos argumentos mais fortes para aquisições cross-border.

Eliminação de concorrentes e fortalecimento competitivo

Comprar um concorrente resolve dois problemas de uma vez: remove a pressão competitiva e incorpora a base de clientes do rival. Em mercados consolidados, como telecomunicações, saúde e varejo, essa estratégia é recorrente. A transação entre Localiza e Unidas, aprovada pelo CADE em 2022 com restrições, é exemplo brasileiro de consolidação horizontal que alterou o equilíbrio do setor de locação de veículos.

O fortalecimento competitivo também ocorre verticalmente, quando a empresa adquire um fornecedor ou cliente estratégico. No comércio exterior, um exportador que compra um terminal logístico ou uma trading concorrente passa a controlar etapas críticas da cadeia, reduzindo custos e blindando o acesso a canais de escoamento.

Aproveitamento de oportunidades de valuation e ativos subvalorizados

Crises econômicas, mudanças regulatórias e janelas de câmbio criam distorções de preço que favorecem compradores. Quando o real se desvaloriza, ativos brasileiros ficam baratos em dólar, atraindo capital estrangeiro; no movimento inverso, empresas brasileiras encontram oportunidades no exterior. O valuation — cálculo do valor justo de uma empresa — é o termômetro dessa decisão.

Fundos de private equity e holdings monitoram múltiplos como EV/EBITDA para identificar alvos negociados abaixo da média histórica do setor. Em 2023, o múltiplo médio de aquisições no Brasil caiu para 7,2x EV/EBITDA, ante 9,1x em 2021, segundo a PwC, sinalizando janela favorável para compradores com caixa disponível e apetite de longo prazo.

Como funciona o processo de fusões e aquisições na prática

Uma transação de M&A segue etapas metódicas que vão da intenção estratégica à integração pós-fechamento. O processo completo dura, em média, de 6 a 12 meses no Brasil, podendo se estender quando há aprovação regulatória do CADE ou de órgãos setoriais como ANVISA e Banco Central. Pular etapas é a causa mais comum de destruição de valor.

O desenho da operação varia conforme o porte e o objetivo: aquisição de controle, compra de ativos, incorporação de ações ou joint venture são formatos distintos com implicações fiscais e societárias próprias. A escolha errada do veículo jurídico pode anular os benefícios esperados.

Etapas essenciais: planejamento, due diligence e negociação

O planejamento define o racional estratégico: por que comprar, qual o alvo ideal, quanto pagar e como financiar. Nessa fase, a empresa mapeia setores, seleciona candidatos e define critérios de exclusão. É também quando se decide se a operação será conduzida internamente ou com assessores especializados — bancos de investimento, escritórios de advocacia e consultorias de desenvolvimento de negócios.

A due diligence é a auditoria completa da empresa-alvo: contábil, fiscal, trabalhista, ambiental, contratual e tecnológica. Levantamento da Deloitte indica que 46% das transações identificam passivos relevantes não declarados durante essa fase, o que frequentemente leva à renegociação de preço ou à desistência do negócio. A negociação, por fim, define preço, forma de pagamento, garantias e cláusulas de indenização.

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Aspectos contábeis e financeiros na avaliação de M&A

A avaliação de uma empresa-alvo combina métodos como fluxo de caixa descontado (FCD), múltiplos de mercado e avaliação patrimonial. O FCD projeta os fluxos futuros e os traz a valor presente por uma taxa que reflete o risco do negócio. Já os múltiplos comparam o alvo com empresas similares negociadas em bolsa ou vendidas recentemente.

Na contabilidade, a operação gera o ágio (goodwill), que representa a diferença entre o preço pago e o valor contábil dos ativos líquidos adquiridos. Desde a Lei 12.973/2014, o ágio passou a ser testado anualmente por impairment, e não mais amortizado de forma linear. Esse tratamento exige rigor na mensuração pós-aquisição e impacta diretamente o lucro reportado.

Gestão estratégica de pessoas e cultura organizacional

A integração de equipes é apontada como o principal fator de fracasso em M&A. Pesquisa da Harvard Business Review revela que 70% a 90% das aquisições não atingem os resultados esperados, e a causa mais citada é choque cultural. Duas empresas com valores, ritos e estilos de liderança incompatíveis tendem a perder talentos e produtividade nos meses seguintes ao fechamento.

O plano de integração deve começar antes do anúncio oficial, com mapeamento de cargos-chave, definição de liderança e comunicação clara sobre mudanças. Retenção de executivos da empresa adquirida, alinhamento de benefícios e construção de uma narrativa comum reduzem a evasão, que costuma atingir 30% do quadro de gestores em até dois anos após a transação.

Exemplos reais de fusões e aquisições no mercado brasileiro

O mercado brasileiro acumula casos que ilustram diferentes motivações para M&A, desde consolidação de varejo até aquisições de tecnologia por empresas tradicionais. Analisar esses exemplos ajuda a entender o que leva as empresas a realizar fusões e aquisições em contextos concretos, com erros e acertos documentados.

As transações abaixo foram selecionadas por representarem categorias distintas: fusão entre iguais, aquisição de concorrente, compra de tecnologia e consolidação de portfólio digital. Cada uma delas gerou efeitos mensuráveis em receita, participação de mercado e valor de marca.

Casos de sucesso: B2W, Magalu, Locaweb e Méliuz

A fusão entre Americanas.com e Submarino, em 2006, criou a B2W, que se tornou a maior empresa de e-commerce da América Latina à época. A operação combinou as operações digitais de dois grupos varejistas rivais, gerando sinergias de logística, negociação com fornecedores e base de clientes. O caso mostra como a fusão pode criar um líder de mercado em segmento nascente.

O Magazine Luiza seguiu rota diferente: entre 2015 e 2021, realizou mais de 20 aquisições, incluindo Netshoes, Estante Virtual, Kabum! e AiQFome. A estratégia de comprar plataformas digitais e logísticas transformou uma varejista regional em ecossistema nacional, elevando o valor de mercado de R$ 4 bilhões para mais de R$ 100 bilhões no pico. A Locaweb, por sua vez, adquiriu mais de 15 empresas de SaaS entre 2020 e 2022, tornando-se consolidadora do setor de tecnologia para pequenas e médias empresas.

O Méliuz, plataforma de cashback, usou aquisições para expandir o portfólio: comprou a Promobit, o Picodi e a Alter, incorporando novos formatos de monetização e presença internacional. O caso ilustra como empresas de tecnologia usam M&A para acelerar roadmap de produto, algo que o desenvolvimento interno não entregaria com a mesma velocidade.

Impactos no setor de seguros e na decisão dos consumidores

O setor de seguros brasileiro passou por onda de consolidação intensa na última década. A aquisição da SulAmérica pela Rede D’Or, concluída em 2022 por R$ 13 bilhões, criou um ecossistema integrado de saúde que combina hospitais, planos de saúde e seguros odontológicos. Para o consumidor, a operação prometeu integração de dados e navegação mais fluida entre serviços.

Outra transação relevante foi a compra da Liberty Seguros pela HDI, em 2023, que consolidou a posição da seguradora alemã no mercado brasileiro de automóveis e residências. O impacto para o cliente final aparece na forma de portfólio ampliado, rede de assistência unificada e, em alguns casos, reajuste de preços decorrente da menor concorrência — efeito que o CADE monitora em setores concentrados.

Riscos e desafios em fusões e aquisições

O entusiasmo com a sinergia projetada não elimina os riscos inerentes a qualquer M&A. Estudo da McKinsey com mais de 2.000 transações globais mostra que apenas 40% delas geram retorno acima do custo de capital. Os 60% restantes destroem valor, em muitos casos por falhas evitáveis de planejamento e execução.

Os riscos se concentram em três frentes: financeira, jurídica e de integração. Identificá-los antecipadamente e desenhar mecanismos de mitigação é o que separa compradores disciplinados daqueles movidos por euforia competitiva.

Riscos financeiros, jurídicos e de integração

O risco financeiro mais evidente é pagar caro demais. O chamado “winner’s curse” — a maldição do vencedor — ocorre quando o comprador supera todos os concorrentes no leilão e descobre, depois, que o preço excedia o valor real do ativo. A sobrecarga de dívida para financiar a compra agrava o problema, especialmente em cenários de juros altos como o brasileiro.

  • Passivos ocultos: dívidas fiscais, trabalhistas e ambientais não reveladas na due diligence
  • Risco regulatório: reprovação ou restrições impostas pelo CADE, como remédios antitruste
  • Falha de integração: sistemas incompatíveis, perda de clientes e saída de executivos-chave
  • Choque cultural: diferenças de valores, ritos e estilos de gestão que paralisam a operação
  • Superavaliação de sinergias: projeções otimistas que não se confirmam na prática

No campo jurídico, contratos mal redigidos deixam brechas para disputas pós-fechamento. Cláusulas de earn-out, que vinculam parte do pagamento a metas futuras, são fonte frequente de litígio quando os critérios de apuração não são objetivos. A arbitragem tem sido o foro preferido para resolver esses conflitos no Brasil.

Como evitar erros comuns no processo de M&A

O primeiro antídoto é disciplina de valuation: definir um preço máximo antes de entrar na negociação e ter coragem de abandonar a mesa se o valor for ultrapassado. Empresas que seguem essa regra apresentam retorno médio 30% superior em M&A, conforme dados da Bain & Company. O segundo é due diligence profunda, incluindo entrevistas com clientes e ex-funcionários, não apenas análise documental.

A integração deve ser tratada como projeto com líder dedicado, cronograma e indicadores. As melhores práticas incluem:

  1. Nomear um responsável pela integração antes do anúncio da transação
  2. Definir os 100 primeiros dias com metas claras de retenção e sinergia
  3. Comunicar decisões de pessoas em até 30 dias para reduzir ansiedade
  4. Mapear riscos culturais e criar plano de convergência de valores
  5. Monitorar indicadores de sinergia trimestralmente por pelo menos dois anos

Para empresas que atuam no comércio exterior, o cuidado adicional envolve a compatibilidade entre estruturas societárias em diferentes jurisdições. Uma holding brasileira que adquire ativos no exterior precisa avaliar tratados de bitributação, regras de preços de transferência e a eventual necessidade de estruturar a operação via joint venture para mitigar riscos locais.

Perguntas frequentes sobre fusões e aquisições

Qual a diferença entre fusão e aquisição?

Na fusão, duas ou mais empresas se unem para formar uma nova sociedade, extinguindo as anteriores. Na aquisição, uma empresa compra o controle ou os ativos de outra, que pode continuar existindo como subsidiária ou ser incorporada. A distinção tem efeitos fiscais, contábeis e regulatórios distintos — a fusão exige aprovação de assembleias de todas as envolvidas, enquanto a aquisição depende apenas do acordo entre comprador e vendedores do controle. Para detalhes adicionais sobre os formatos, veja o que são fusões e aquisições.

Por que as empresas optam por M&A em vez de crescimento orgânico?

O crescimento orgânico é mais barato e menos arriscado no longo prazo, mas é lento e limitado pela capacidade interna da empresa. M&A entrega escala, acesso a mercado e capacidades de forma imediata, ainda que com custo de integração elevado. A escolha depende do contexto: em setores com janelas de oportunidade curtas ou barreiras de entrada altas, comprar é frequentemente a única via viável para não ficar para trás.

Quais são os principais tipos de fusões e aquisições?

  • Horizontal: entre concorrentes do mesmo setor e etapa da cadeia
  • Vertical: entre empresas de etapas diferentes da mesma cadeia produtiva
  • Conglomerado: entre negócios sem relação direta, visando diversificação
  • Concêntrica: entre empresas com mercados ou tecnologias complementares
  • Cross-border: entre companhias de países diferentes, comum em internacionalização

Como a due diligence impacta o sucesso de uma transação?

A due diligence é o principal instrumento de redução de assimetria de informação entre comprador e vendedor. Ela revela passivos que não aparecem nas demonstrações financeiras, valida as premissas de valuation e fornece base para negociação de preço e garantias contratuais. Transações que pulam ou encurtam essa etapa apresentam probabilidade significativamente maior de arrependimento pós-fechamento e litígios.

Quais setores mais realizam fusões e aquisições no Brasil?

Segundo dados da PwC e do Transactional Track Record (TTR), os setores mais ativos em M&A no Brasil são tecnologia, saúde, energia, agronegócio e serviços financeiros. Tecnologia lidera em número de transações desde 2020, impulsionada pela digitalização acelerada. Saúde e energia concentram as operações de maior valor, enquanto o agronegócio registra volume crescente de aquisições por grupos estrangeiros interessados em terras, logística e processamento.

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